Foram os quintais de Havana que me disseram “eis a América Latina”, quando aí estive pela primeira vez. São os arredores, os subúrbios que nos dão a ver, primeiro, uma cidade. Aeroportos, estações ferroviárias, terminais rodoviários nos deixam por aí, nesse ponto de afastamento do núcleo urbano inicial, onde fervilham, no presente, os pontos turísticos, alvo dos viajantes, em sua maioria. No trajeto até o centro, esses intestinos se mostram, de cara, na sua crueza, em seu lirismo acanhado. Intestinos ou franjas?
Franjas é mais poético e verdadeiro. Pois bem, nas franjas de Havana vi que estava em casa. Crótons e dracenas, hibiscos e helicônias. Roseiras e algum jasmim ou aparentado. Latino, então, esse lote da América nomeado por interesse europeu, franceses em oposição aos ingleses? Enorme e pujante parte de um continente em permanente indagação sobre sua identidade, sobretudo este gigante Brasil que não sabe se sim ou se não. Nós, brasileiros, somos ou não América Latina? Para mim, basta olhar os quintais para obter a resposta.
Trinta anos, quase, e muitos quintais depois disso, muitos centros históricos também, plazas e marcos, os quintais continuam me dizendo da alma das pessoas de um lugar. As plantas escolhidas, arranjos peculiares, a música que se ouve e as festas chegam como fotografia ímpar da cultura que ali pulsa. Já a alma de uma cidade pode-se ver em sua arquitetura e em sua escrita. Escrita de muros e salões, bibliotecas e banheiros. Escritas que vão permanecer, ou que desaparecerão sob tintas e tesouras. Escrita anônima e informal, autoral e reconhecida. Escrita da selva, escrita do jardim.
Meu lugar de apreensão do mundo é a escrita. Um bocado de Latinoamérica tem me chegado por essa via, pela escrita que encontro e registro em meu Diário de navegação da palavra escrita na América Latina. Não está completo, mas o primeiro volume, ainda inédito, traz a escrita efêmera, autêntica e sem cuidado, expressiva e destinada ao apagamento, ao lado da escrita oficial, de permanência nos documentos e na literatura impressa, de Cuba, Colômbia, Brasil, Uruguai, Argentina, Chile, Peru, Panamá, México. Esses países se dizem em seus muros, banheiros, papéis colhidos do chão, escritas em monumentos, livros diversos, conversas com gente encontrada nas ruas, entrevistas em encontros marcados. Montevidéu, Café Brasilero, Eduardo Galeano. Que lástima não ter completado o Diário, parte de minha loucura, como me disse, antes da morte dele.
Na primeira ida a Cuba, para participar de um seminário sobre literatura para crianças e jovens, conheci a escritora cubana Emilia Gallego Alfonso. Ela me apresentou a todo um mundo, mas teve um carinho peculiar para com a ceiba, árvore centenária na Plaza de Armas, e a mariposa, a flor nacional de Cuba. Ganhei o perfume “Mariposa”, extraído de sua essência. Floral em demasia, doce, o que em geral não me agrada. Mas usei meu frasco até o fim, enquanto a América Latina permanecia, fluida, espessa, contradição viva em minhas veias. Permanece.
Em português, mariposa não é flor ou perfume, mas inseto. Vou atrás dos sentidos. Diz o Dicionário Houaiss, que mariposa é designação comum aos insetos lepidópteros da divisão dos heteróceros, que especialmente reúne espécies de voo noturno, com antenas filiformes ou pectinadas. O Diccionario da Real Academia Española (DRAE) informa que mariposa provém de Mari, apóc. de María, y posar. Para saber mais, se vai a etimologia, onde é explicitado que “Mariposa, según el DRAE es la unión del apócope de María y “posa” tercera persona del singular en presente de indicativo del verbo posar. Apesar de ser insectos y que éstos no se juntan mucho con el agua, los humanos tenemos el “nado de mariposa”, las corbatas de mariposa y algunos humanos son “mariposones” (afeminados, maricas, travestís, etc.). Ya vimos que “papillón” es derivado francés de mariposa y “papálotl” es la mariposa en náhuatl […].
A página deve ser consultada, em função das observações complementares e muito originais algumas, dentre as quais aquela que diz ser mariposa palavra somente de língua castelhana, sem similar em outros idiomas neolatinos. O uso de mariposa em português é um castelhanismo; no vernáculo, o vocábulo sempre foi borboleta.
Mariposa. Um mar de sentidos possível. Sem considerar o regionalismo brasileiro, em que o termo pode também significar meretriz, baila em volta da palavra a ideia de um ser atraído pelo brilho e calor da luz, e que aí se consome. Outros itens, além da flora nos quintais, podem dar a reconhecer a identidade da América Latina. Certos anseios sempre deixados a meio, certo projeto de normalidade democrática, uma linha contínua de igualdade que não se atenha apenas às linhas da lei, mas às pautas da prática, são todos traços inequívocos da história da América Latina. Outros territórios poderão apresentar semelhanças com este traçado, mas não são o território em que me reconheço e onde posso melhor atuar.
Coletar escritas, registrá-las e refletir sobre elas, o que escrevem, por que escrevem, como escrevem, para que escrevem as pessoas na América Latina, isso deixa perguntas e responder às perguntas é maneira devida de transformar um status quo. Uma boa pergunta colabora de forma direta para mudanças no mundo. Mariposa, flor, inseto ou meretriz, pode ter outro destino, além de se deixar atrair pela ilusória luz da candela ou de borboletear, voejar sem destino e pouso.
Mesmo um destino biológico pode, dadas novas circunstâncias, redesenhar-se. Artistas, educadoras e algumas personagens, políticas ou não, sabem disso. Quino e sua Mafalda vêm da ponta Sul do continente, fazer as boas perguntas:
– ¿Por qué en Latinoamérica democracia y riqueza posan aquí y allí, y luego se van?
Nilma Lacerda é doutora em Letras, com pós-doutorado em História Cultural. Presente na publicação da Casa Philos, 37 escritoras neolatinas contemporâneas, escreve ficção que adultos leem, ficção que crianças e jovens também podem ler, ensaios e obras de cunho acadêmico. Foi professora da Universidade Federal Fluminense e, em sua carreira literária, tem recebido vários prêmios e distinções, dentre os quais o Prêmio Jabuti, o prêmio Rio e o selo White Ravens. Com obras publicadas na América Latina, é também tradutora e colaboradora de periódicos literários. Acesse o site oficial nilmalacerda.com.bre siga a colunista no instagram e facebook.